Bate bola, ping pong, jogo rápido.

Dá para ter uma carreira que transforme o mundo?

Mudar o mundo ou pagar as contas? Roberta Faria prova que a resposta é “os dois”. Fundadora da MOL Impacto, ela transformou o troco do caixa em um modelo de negócio que já doou mais de R$ 90 milhões para pessoas em situação de dificuldade social. Nesta conversa com o New Plan, ela conta como uniu carreira e propósito sem romantismo, mostrando que a filantropia pode ser um exercício diário e uma ferramenta poderosa de transformação. Fica aqui, vale a pena.

_Roberta, conta pra gente um pouco da sua trajetória profissional e seu caminho até a MOL Impacto?

Sou jornalista de formação e venho de uma família muito engajada com questões sociais, então essa vontade de “mudar o mundo” sempre esteve presente em mim. Só que eu fui mãe solo aos 17 anos e precisei equilibrar a angústia millennial de buscar propósito com a urgência de pagar muitos boletos. Trabalhei no mercado editorial tradicional, fiz coisas importantes, mas me frustrei com a falta de espaço para inovar e, principalmente, com a dificuldade de alinhar valores éticos a resultados financeiros. Foi desse incômodo que nasceu a decisão de pedir demissão e criar a MOL Impacto.

Encontrei outras pessoas insatisfeitas como eu, cada uma com sua própria história, mas com a mesma vontade de buscar mais do trabalho. Nós nos juntamos e criamos a MOL Impacto, que no começo era uma editora. E antes de querer ser um negócio de impacto, a gente queria criar a empresa onde gostaria de trabalhar: um lugar onde não precisássemos performar, onde pudéssemos ser quem somos sem esconder nenhuma parte da nossa vida, personalidade ou história.

Um lugar onde a gente pudesse trabalhar entre amigos, se sentir em casa, ter flexibilidade, ter mais tempo para o que realmente importa, mais qualidade de vida. Um lugar onde nosso trabalho nos orgulhasse, onde fizéssemos as coisas do jeito que acreditávamos ser o certo, onde pudéssemos deixar o mundo um pouquinho melhor.

Um dos primeiros projetos da MOL foi voluntário, para o GRAACC, que é o Grupo de Apoio ao Adolescente e à Criança com Câncer, um dos maiores hospitais filantrópicos do Brasil. Nosso desafio era criar uma forma de espalhar a causa, trazer doações e novos doadores para o hospital. Tivemos a ideia de criar uma revista que contasse histórias de pessoas comuns fazendo coisas extraordinárias por suas comunidades. Uma inspiração que vinha do próprio hospital. Queríamos falar sobre o que realmente importa na vida, sobre o que temos em comum, sobre relações, questões de autoconhecimento, busca pela felicidade e pela realização.

Essas eram lições que víamos diariamente ali: como as pessoas no GRAACC enfrentam o câncer, reavaliam prioridades diante de situações tão graves. E dessa inspiração surgiu uma maneira de falar da causa sem necessariamente falar de câncer  e de conseguir se conectar emocionalmente as pessoas.

Naquela época, as bancas ainda eram grandes no Brasil. Uma banca média em São Paulo tinha uns 3.500 títulos; uma revista custava em média R$ 8,90, há 18 anos atrás. E a gente queria criar algo para democratizar o acesso à leitura, ter visibilidade, vender muito e doar muito, com 100% da renda destinada ao GRAACC.

Encontramos na Droga Raia, que na época era uma empresa familiar com 140 lojas, o lugar espaço para vender isso. A ideia era oferecer a revista no caixa, no final da compra: o atendente perguntava se a pessoa gostaria de ajudar o GRAACC e levar a revista em troca. Ela custava R$ 2,50. Fizemos a primeira edição esperando vender em três meses. Esgotou em três semanas. Em quatro edições já tínhamos arrecadado 1 milhão de reais. Em cinco anos, tínhamos ajudado erguido um hospital novo com o dinheiro das vendas da Sorria.

Sem querer, sem saber direito o que a gente tava fazendo, acabamos criando um modelo novo de negócio, um modelo ganha-ganha. O varejo não investe financeiramente: não paga pelo projeto, mas cede algo que custa muito caro e que é muito importante para a gente conseguir chegar nas pessoas — o centro de distribuição. O espaço no caminhão, no balcão, no discurso do atendente. Ele não cobra margem de lucro sobre a venda deste produto. Isso, para a indústria, custa caríssimo e para nós, é de graça. Assim conseguimos chegar a milhões de pessoas com um espaço muito privilegiado, um produto barato, cuja renda vai para a organização.

Para a organização, esse modelo vira uma fonte de renda recorrente porque tem produto novo a cada dois meses, no caso da Sorria. E ao mesmo tempo estouramos a bolha da ONG, levando sua causa para muito mais gente, porque o varejo tem capilaridade e influência enormes e alcança lugares onde a comunicação do hospital, dos voluntários, não chega, então a gente consegue trazer mais visibilidade pra causa e para a organização e mais doadores também.

Para o consumidor, que é quem faz essa roda girar, é a chance de fazer uma microdoação na rotina e ganhar algo em troca.

A revista que custava R$ 2,50 no caixa custaria uns R$ 8,90 na banca. Hoje, a Sorria evoluiu: virou coleção de livros, e os livros custam R$ 6,99, enquanto o preço médio de um livro no Brasil é R$ 54. Ou seja, entregamos um produto de altíssimo valor por um preço acessível, com conteúdo feito por jornalistas, artistas brasileiros, sempre com o apoio de instituições de referência, baseado em ciência, dados e histórias inspiradoras.

Além de tudo, o produto traz transparência total: detalha para onde vai cada centavo, reforçando a confiança. É um modelo muito potente, que soma centavo por centavo, real por real e como milhões de pessoas passam pelo varejo todo dia, isso vira um volume gigantesco.

Para a MOL, esse modelo também foi uma forma de fazer conteúdo independente, de qualidade, alinhado aos nossos valores, com sustentabilidade financeira que leva nossos valores adiante, que mexe ponteiros, mudar o mundo um pouquinho, de uma maneira que nos garante equilíbrio entre impacto e receita.

O modelo evoluiu ao longo dos anos, mas funciona basicamente assim: a MOL adianta o custo de produção, faz esse produto; do valor que o cliente paga, cerca de 5% a 8% são impostos; entre 25% a 40% é doação; o restante é o custo de produção — que inclui tudo, desde conteúdo até displays de loja, comunicação, treinamento dos funcionários, acompanhamento diário das vendas para garantir que vai esgotar, a parte toda de transparência, editais, curadoria das ONGs, planos de uso dos recursos, prestação de contas e narrativa de impacto. Cuidamos tudo de ponta a ponta para que o produto seja o mais bem-sucedido possível e doe o máximo possível. E dentro desse custo está também a nossa margem, porque não somos uma ONG, somos um negócio social.

Com essa conta e vendendo volumes gigantescos a cada edição, conseguimos arrecadar muito para doação e, ao mesmo tempo, ter um negócio sustentável, lucrativo, saudável,  aplicando nossos valores, que era o que a gente queria fazer desde o início.

Fundamos a MOL em 2007. Hoje ultrapassamos 90 milhões de reais doados em valores nominais; corrigido pela inflação, já passamos dos 100 há muito tempo, apoiando mais de 240 organizações em diversas causas no Brasil.

Ao mesmo tempo, construímos uma empresa onde realmente gostaríamos de trabalhar: semana de 4 dias, licença-maternidade e paternidade estendidas, eu sou uma defensora ferrenha do home office, licença menstrual, ações ligadas à voluntariado e cultura de doação. Acho que conseguimos fazer a empresa que a gente gostaria de trabalhar, tanto que, apesar de sermos millennials, estamos há 18 anos no mesmo lugar, gerando um impacto enorme, mantendo o negócio lucrativo.

_Por aqui, buscamos desvendar um (novo) olhar pro mundo, principalmente da perspectiva dos jovens millennials que, muitas vezes, se vêem perdidos entre a realidade dos boletos que não param de chegar e conceitos como sustentabilidade e propósito. Nesse contexto, como você enxerga uma filantropia atual, acessível e que de fato se conecte com a realidade desses jovens?

Sobre esse dilema millennial de não querer só pagar boletos, acho importante evitar a romantização. Pagar contas também é um propósito essencial para quem não tem a vida ganha, o que é o caso da maioria das pessoas. Garantir comida, cuidado e um teto importa, e muito. Ao mesmo tempo, dá para buscar mais propósito e equilíbrio na rotina. E é bom ressaltar que nem sempre isso vai estar no “trabalho principal” (o que gera fonte de renda). Às vezes aparece em projetos paralelos ou em pequenas escolhas do dia a dia.

É o que chamo de microdoações: no jeito de trabalhar, de consumir, de se relacionar com quem está ao redor. Não é um cargo ou um status que resolve isso. Em quase qualquer função, dá para alinhar o que se faz aos valores pessoais. E quando não dá, talvez seja hora de mudar.  Porque ser bom é importante, fazer com alegria é importante.

_Como a MOL Impacto hoje busca desmistificar alguns estereótipos ainda comuns quando o tema é filantropia, visto como algo atrelado à moral, à religião, à caridade emergencial, e pouco pensada de forma mais frequente e possível no dia a dia?

A filantropia e a cultura de doação não são, para mim, algo ligado à moral, à religião ou à caridade pontual. Elas são reservas de esperança e alegria. Quando usamos o que temos a nosso favor para algo coletivo, ganhamos perspectiva sobre os nossos próprios problemas e aprendemos mais sobre nós e sobre o mundo. Por isso, sempre incentivo as pessoas a se envolverem com projetos sociais, seja levando isso para o trabalho, seja encontrando outras formas possíveis de fazer parte.

Esse envolvimento pode acontecer de muitas maneiras. Pode ser ativismo nas redes, trabalho voluntário, escolhas de consumo mais conscientes, atenção ao conteúdo que consumimos ou à forma como nos relacionamos com as pessoas ao nosso redor. Não precisa ser um trabalho em tempo integral, mas é algo que deve atravessar a vida. Todo mundo tem algo a doar, seja dinheiro, tempo, escuta, presença ou voz. Em todas as classes sociais e em todos os lugares existem pessoas fazendo coisas boas, e precisamos nos juntar a elas. Ao meu ver, doar não é um gesto moral nem religioso. É um exercício político.

_Quando o tema é conteúdo a MOL Impacto faz um trabalho excelente, sejam por palavras em uma linguagem relacionável, seja por uma estética única. Como você acredita que esses pilares, tratados com tanto detalhe e cuidado por vocês, fazem a diferença na hora de conversar com o público?

Produzir conteúdo acessível, atraente e inspirador faz toda a diferença para que a conversa aconteça de verdade. A meta da MOL Impacto sempre foi criar produtos baratos, bonitos e agradáveis, que funcionem para qualquer nível de leitura. Vivemos num país onde o analfabetismo funcional e a falta de hábito de leitura ainda são desafios enormes, então precisamos pensar em formatos que acolham, não que afastem. Por isso apostamos em textos curtos, bem pensados, emocionantes, com histórias que criam identificação e fazem quem lê pensar “eu também”. Quando a gente chega nesse lugar, a mensagem atravessa com muito mais força.

A estética também importa muito. Fazemos produtos ilustrados, visualmente agradáveis, que dão prazer aos olhos, porque comunicação não é só o que queremos dizer, é o que o outro consegue absorver. Existe um espaço delicado entre o que queremos contar e o que o outro está disposto a ouvir, e é ali que a conversa acontece. Design, escolha de palavras e edição ajudam a espalhar mensagens e a democratizar o acesso. E democratizar acesso não é só preço, é presença. Venho de uma cidade do interior de Santa Catarina onde não havia livraria, mas havia farmácias vendendo os livros da MOL. Muita gente diz que as pessoas não leem mais, mas nossos números mostram o contrário. Vendemos milhões de exemplares por ano porque o interesse existe, o que muitas vezes falta é acesso simples, possível e cotidiano.

_Para os jovens que desejam se aproximar de projetos e causas, mas não sabem ao certo os caminhos, quais as dicas que você daria?

Acho que tudo começa por um exercício de autoconhecimento. Entender quais temas mais te mobilizam, quais notícias te indignam, o que faz seu olho brilhar. A partir disso, transformar indignação em ação. Criamos o teste Descubra Sua Causa justamente para ajudar nesse processo, de forma leve e acessível, mas esse caminho também pode vir da escuta, da observação e da reflexão pessoal. Existem milhares de organizações incríveis e pessoas fazendo trabalhos importantes, e um bom começo é revisar o feed, ver quem você segue, quais causas estão presentes no seu cotidiano digital.

_Saindo um pouco do universo da Mol, aqui a gente acredita que dica boa é dica compartilhada. Tem alguma série, filme, livro, perfil ou descoberta que você recomenda para os nossos leitores?

Um livro que me marcou profundamente é “A Bolsa Amarela”, da Lygia Bojunga. Apesar de ser considerado infantil, é um livro muito adulto, que fala sobre desejos, silenciamentos e a coragem de viver as próprias verdades, sempre de forma coletiva. Li pela primeira vez aos sete anos e releio até hoje. Também acompanho muito o trabalho do Michel Alcoforado, que ajuda a entender a sociedade de forma acessível e profunda, e a The School of Life, que traz reflexões importantes sobre quem somos e como nos relacionamos.

Ultimamente, tenho me interessado muito pela ideia da alegria como forma de resistência. Em meio a tantas metas e pressões, cultivar pequenos prazeres, deslumbramento e presença é uma forma de seguir adiante sem endurecer. A alegria, para mim, é um recurso civilizatório e um combustível essencial para continuar lutando e acreditando que dá para fazer diferente.

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